“Que relação pode ainda estabelecer a poesia moderna com qualquer coisa da ordem do sagrado?” […] A pergunta [de Jean-Claude Pinson (‘Habiter en pòete’, 1995)] começa por uma alusão, um propósito de memória para uma forma que se perdeu. Houve uma relação, que à maneira do laço distraído, nos sapatos de um miúdo, se desatou enquanto ele corria, e essa espécie de respiração única que ligava poesia e sagrado deixou de acontecer. À maneira dos outros saberes, e do próprio mundo, também a poesia entrou num processo de secularização.
A secularização implodiu o mito romântico do poeta iluminado, descrito com as prerrogativas de alguém que fala, não simplesmente em seu nome, mas como boca de outro (é essa a etimologia de “profeta”) e trocou uma hermenêutica quase divinatória da inspiração poética pelo rigoroso e aturado trabalho de oficina, na explicação do poema. Mas, sobretudo, inscreveu a legítima autonomia entre religião e essa actividade humana que é a poesia, libertando-a de esquadrias exteriores, que a podiam tornar epígono em vez de luzir original, primitiva labareda de um nome.
Porém, deve-se igualmente dizer, o processo de secularização não é isento de limites. O maior deles, reside na construção de um mundo largamente desdivinizado, reduzido nas suas acepções possíveis, “uma coisa sem transcendência”, como denunciou Ortega y Gasset, distraído que está da profundidade dos grandes símbolos, dos códigos matriciais das linguagens que rondam o mistério que se consuma em nós, enquanto dispersa a sua fortuna no raso comércio de sinais que se pretendem directos e imediatos, longe, muito longe, da preocupação pelo fulgor íntimo de um sentido.
Ossip Mandelstam escreveu que “a poesia é a charrua que opera sobre o tempo para fazer emergir o que, nele, repousa no profundo”. Se, de facto, alguma relação se pode ainda estabelecer entre a poesia moderna e alguma coisa da ordem do sagrado, isso passa pelo relato dos sulcos que, pacientemente, revolvem as devastações da terra em busca de um brilho, de uma razão, de uma palavra ou transtornam as escuridões planetárias que nos habitam, na esperança de “um não sei quê” agitado de esplendor. De que forma? Tanto pelo despertar do encantamento que religa a palavra ao silêncio, o visível ao invisível, por uma espécie de integridade inseparável que se descobre em nós e nas coisas, como pelo desencanto face ao inaceitável do mundo, à repetição sonâmbula do mal, à violência desmedida da banalidade que contamina tudo.
Esta pulsão múltipla, que reconhecemos tão própria da experiência poética, faz que Jean-Claude Pinson defenda que, mesmo nos poetas que se consideram ateus, há uma preocupação pelo sagrado. Isto é, o que move a mão escrevente é uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada. Uma paixão que ordena a mão na procura disso que, numa novela de Henry James, se explicita assim: “E a ti, o que é que te salva?”. Oh, os que não sabem que a mão escrevente é a mão que salva!

José Tolentino Mendonça


‘A primitiva labareda’ [prefácio], in Ana Marques Gastão, António Rego Chaves e Armando Silva Carvalho, ‘Três vezes Deus’, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 7-12.