Maria Eulália de Macedo nasceu em Amarante, no dia 21 de março de 1921, há cem anos.
De Teixeira de Pascoaes a Maria Ondina Braga, muitos foram os escritores e os artistas com quem conviveu. Os seus livros – ‘Construção do Vento Norte’ [1968], ‘Raízes’ [1970], ‘Histórias de Poucas Palavras’ [1971] e ‘As Moradas Terrenas’ [1994] – surgiram como uma extensão natural do modo como se situou no mundo.
No dia 2 de julho de 2009, fui convidado para apresentar a reedição do seu livro ‘Histórias de Poucas Palavras’. Nesse contexto, em vez de uma apresentação formal, decidi escrever-lhe uma carta, uma carta entreaberta… uma carta de amor. Disse-lhe que aquele livro não era como outros livros. Nas suas páginas, havia o cheiro da terra molhada, a intimidade de um gesto, a vida inteira redimida nas palavras; havia retratos, os antigos retratos desses fantasmas que habitavam o seu mundo. Era como se, inesperadamente, tivéssemos vivido na mesma casa, desde sempre, porque a sua casa era antiga como o Marão, antiga como o mundo.
Escrevi essa carta, porque também eu acreditava que certas manhãs de fevereiro eram transparentes; porque também eu suspendia a respiração à hora da chegada do correio; porque conhecia a sua terra como se nela tivesse nascido ou nela tivesse já morrido; conhecia o seu rio e comovia-me aquela Nossa Senhora da Ponte, com o seu sorriso de granito e nos braços o Filho… à espera da ressurreição.
Escrevi essa carta, porque também eu conhecia o rumor dos dias, a lenta passagem das horas. Escrevi-a porque conhecia a sua casa: aquele São Jorge que guardava a entrada nas pausas da sua luta eterna contra o dragão; o granito por fora, as madeiras por dentro; os velhos livros, os retratos espectrais, o modo natural e orgânico como a casa crescia e se abria para um jardim, com flores e árvores de fruto numa certa desarrumação romântica, onde descansávamos o coração enquanto bebíamos uma limonada. Escrevi essa carta de amor, porque me comovia a sua lucidez, o modo como arrastava a voz oracular e se exprimia em aforismos e, como eu, carregava nos erres. Escrevi-a, porque também eu escutava a urze e conhecia o silêncio das tardes de outono, quando os pássaros não voam e as nuvens se deitam na cama dos rochedos mais altos.
Na Eulália pulsava uma comovida e comovente humanidade, um amor raro pela terra, sem asfixia; um amor raro pelas pessoas.
Tinha ela meio século de vida quando eu vi pela primeira vez a luz; nasceu no equinócio da primavera, eu nasci no equinócio de outono, talvez por isso a sua juventude e a minha velhice nos tornassem tão próximos.
Durante anos trocámos cartas… como quem se namora.
Depois veio a morte, no dia 4 de dezembro de 2011.
Passam hoje cem anos sobre o nascimento dessa mulher inesquecível que, como escreveu Sophia, pertence à raça daqueles que “percorrem o labirinto/ Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”.


José Rui Teixeira